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Atividade Agrária e seus impactos sobre o meio ambiente


Renata de Freitas Martins

 

Advogada em São Paulo

Pós-graduanda bolsista em Direito Ambiental pela Escola Superior de Direito

renatamartins@adv.oabsp.org.br


            Introdução 

            O Brasil possui a maior biodiversidade do planeta, reunindo por volta de 20% das espécies animais e vegetais do mundo. Com 50 mil a 56 mil espécies de plantas superiores (árvores e arbustos), tem o primeiro lugar em biodiversidade vegetal. Nenhum outro país possui tantas espécies de palmeiras (390) nem de orquídeas (2,3 mil catalogadas). Igual posição ocorre entre os mamíferos, pois concentramos 524 espécies, sendo 77 de primatas, o que equivale a 27% do total de macacos do mundo. Também somos o país com o maior número de espécies de peixes de água doce (mais de 3 mil), o segundo em número de anfíbios (517 espécies) e o terceiro em número de aves, com 1.677 espécies, das quais 191 endêmicas. 

            Porém toda essa biodiversidade vem sendo ameaçada sistematicamente. A exploração exacerbada dos recursos naturais e a destruição em massa destes dá-se no Brasil desde a época de sua colonização, quando os colonizadores, em sua enorme cobiça pela fauna, flora e conseqüente biodiversidade rica e preciosa, não colocaram limites no uso de todos estes recursos. As atividades econômicas adotadas no Brasil têm sido prejudiciais desde então, no início com a exploração do pau-brasil, seguida pela derrubada sem critério de amplas extensões de mata para ba instalação de pastagens ou monoculturas, como a cana-de-açúcar e o café. Dessa forma, instalou-se uma tradição de práticas danosas, como as queimadas e o corte de árvores sem o cuidado de garantir reposição de espécies. 

         Atualmente, agricultores e madeireiras continuam a devastar grandes áreas da floresta Amazônica, da mata Atlântica, do cerrado e da caatinga. O país sofre com outros problemas ambientais graves como as queimadas – que contribuem para o aquecimento global e para as alterações climáticas – e o aumento da emissão de monóxido de carbono, que afeta a saúde da população, principalmente nas grandes cidades. 

            Atividade agrária 

            Conforme proposta de questão apresentada, após breve introdução sobre a situação ambiental do Brasil, trataremos a seguir mais especificamente das atividades agrários e seus impactos no ambiente. 

         Consideraremos a atividade agrária como a agropecuária, abrangendo a agricultura e a criação de animais, as quais, dada sua maneira atual de manejo, está inserida como ramo de atividade potencialmente impactante, conforme a Resolução 001/86 do CONAMA, em virtude dos resíduos orgânicos e químicos produzidos.  

Ademais, deve-se levar ainda em consideração os efeitos das diversas atividades diretamente relacionadas às atividades principais, como por exemplo o material de limpeza utilizado em galpões, as embalagens de agrotóxicos e fertilizantes com suas respectivas destinações, as sementes tratadas, os resíduos de medicação veterinária e o próprio manejo direto do homem no trato com os animais. 

          Impactos ambientais originados pela atividade agrária 

         Existem diversas formas de impacto originadas da atividade agrária, dentre as quais destacamos: 

- Contaminação de solos e águas: que pode ser dar por meio de diversas substâncias, principalmente: 

a) agrotóxicos (Lei n.º 7.802/89, art. 2º, inciso I); 

b) fertilizantes (Decreto n.º 86.955/81, art. 3º); 

c)  medicação veterinária: alguns tipos de agrotóxicos possuem fórmula química que pode ser convertida em medicamento animal, como por exemplo o Avermectin (originário de um composto químico descoberto em um fungo que habita os solos e que teve sua molécula copiada em laboratórioe transformada em acaricida, sendo também um antiparasítico para bovinos), Deltametrina e Diazinon

d)  detergentes e óleos: óleos formam camadas que impedem a luz solar de penetrar e, por conseqüência, de ocorrer processos essenciais. O uso de detergentes que contenham nitratos (um nutriente) contaminam o manancial aquático e levam à superpopulação de algas, que por sua vez disputam luz e oxigênio, morrem (eutrofização), levando aquele meio hídrico à morte; 

e)  dejetos agrícolas e outros resíduos orgânicos: de forma semelhantes aos óleos e detergentes, poluem os mananciais e com a decomposição da matéria orgânica e a elevada demanda de oxigênio levam ao colapso acides, rios e lagos; 

f)   microorganismos patogênicos: os resíduos dos processos de manejo e o próprio homem acabam levando microorganismos causadores de doenças ao meio aquático, e, dada sua disseminação, o controle pode ser muito difícil. Um exemplo bastante comum é o das águas, inclusive o lençol freático, contaminados com esgoto doméstico ou dos galpões em áreas rurais.

- Degradação do solo 

         Trata-se de uma série de processos que levam à perda de qualidade dos solos ou à sua redução quantitativa. Dentre os principais causadores da degradação do solo estão: 

a)  queimadas: uma das mais antigas técnicas para a limpeza  e preparo do solo, a queimada é a forma mais barata e também a mais nociva de executar essa tarefa. Ela empobrece o solo e consome seus nutrientes. A fumaça liberada causa danos à saúde e contribui para o aquecimento do planeta. O MMA calcula que 300 mil queimadas ocorram por ano em todo o território nacional. A falta com o isolamento da área a ser queimada e a execução do procedimento sem autorização do Ibama são os principais fatores que levam ao crescimento do número de incêndios; 

b)  desmatamento: o Brasil, com 5,5 milhões de quilômetros quadrados de mata, ocupa o segundo lugar entre os países com a maior cobertura florestal remanescente do mundo, ficando atrás apenas da federação Russa. No entanto, o país perde anualmente mais de 20 mil quilômetros quadrados de vegetação nativa por causa de derrubada de árvores e de incêndios florestais provocados pela ocupação humana. 

As causas desta degradação provenientes da atividade agrária são: 

a)  erosão: uma vez modificado o solo, para cultivo ou por desmatamento, tem início a erosão, um processo que pode remover mil vezes mais material do que se esse mesmo solo estivesse coberto por sua vegetação original. Por ano estima-se que o Brasil perca aproximadamente 500 milhões de toneladas de solo por causa da erosão. O arraste de partículas constituintes do solo se dá pela ação da chuva, além da própria erosão geológica ou normal, que tem por finalidade nivelar a superfície terrestre. As regiões mais atingidas pela erosão estão no cerrado brasileiro, com a ocorrência de voçorocas, processo de erosão que atinge grandes proporções;

b)  desertificação: áreas desertificadas são aquelas em que os efeitos de problemas ambientais, como a seca e a baixa fertilidade do solo, são agravados pela ação humana, com o uso inadequado dos recursos hídricos, de defensivos agrícolas ou desmatamentos.

          A ação humana sem planejamento cria conseqüências sérias como a erosão e a salinização do solo. A expansão da pecuária também provoca prejuízos ao ambiente. 

- Monocultura: onde a prática de cultivar uma só variedade vegetal em grandes extensões resulta em alterações do ecossistema, desequilibrando populações que conviviam naquele meio, resultando em pragas, ou melhor, monopragas, alterando a diversidade e causando o empobrecimento do solo. 

- Biodiversidade: trata-se da variedade de organismos vivos em um habitat. A destruição de apenas um desses organismos pode prejudicar toda uma cadeia alimentar, podendo trazer graves riscos de extinção de espécies e até mesmo destruição do ecossistema. 

- Ecossistema: é uma comunidade de organismos e suas interações com o entorno. Os produtores, consumidores, decompositores e a matéria abiótica constituem um todo integrado cuja fonte de energia é o Sol. Ocorre que o homem interfere neste equilíbrio com os resíduos que maneja e produz. 

- Cultivo de OGMs: há várias determinações da CTNBio no sentido de avaliar a segurança no cultivo experimental de organismos geneticamente modificados. Porém os necessários estudos ainda estão sendo realizados, enquanto diversas plantações de transgênicos já existem, sem se saber quais os verdadeiros impactos que estas espécimes podem causar no meio em que estão inseridas. 

          Conclusão 

          É secular o choque entre atividades de cunho econômico e a conservação ambiental. Em particular, o conflito entre a agropecuária e a preservação do meio ambiente data de antigas eras, quando o homem abandonou as cavernas e as atividades de extrativismo, caça e pesca, para cultivar plantas e criar animais, de forma a melhor atender as suas conveniências e trazer o tão galgado lucro do capitalismo. 

Faz-se mister a harmonização das demandas da sociedade por produção de alimentos, desenvolvimento econômico e geração de renda e de empregos com a sustentabilidade dos processos de produção agropecuária, perseguindo componentes de preservação ambiental nas tecnologias utilizadas, visando à conservação de recursos naturais, como a biodiversidade, a água, o solo e o ar, objetivando melhor qualidade de vida, produção de alimentos saudáveis e sustentabilidade do agronegócio. 

A melhor solução para este conflito são as tecnologias ambientalmente saudáveis, que de acordo com a Agenda 21 são aquelas que protegem o meio ambiente, são menos poluentes, usam todos os recursos de forma mais sustentável, reciclam mais seus resíduos e produtos e tratam de dejetos residuais de uma maneira mais aceitável do que as tecnologias que vieram substituir

Alguns exemplos dessas tecnologias ambientalmente saudáveis são: agricultura sustentada; sistema integrado de produção agroecológico; substituição de agrotóxicos e fertilizantes por métodos de controle natural e processos biológicos; rotação de culturas; curva de nível, respeitando as determinações legais das áreas com inclinação acentuada etc. 

Posto isso, fazendo-se utilização racional e sustentável de nossos recursos naturais, haverá a adequação entre interesses econômicos e ambientais, sendo possível o tão almejado e necessário ambiente sadio e equilibrado e possibilitando a existência de vida para nossas futuras gerações.

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